COMverso

Editorial

Quando escolhemos ver

Comunicar é, antes de tudo, escolher – para onde olhar, quem ouvir. Eleger quais histórias merecem ser contadas. Toda produção jornalística nasce dessa decisão – a qual, inevitavelmente, ilumina algumas realidades enquanto deixa outras nas sombras.

E as sombras não são apenas lugares escuros. São espaços de ausência. De silêncio. Elas escondem pessoas que aprenderam a viver sem serem vistas. Situações que, duras demais, são mais fáceis de ignorar.

Foi dessa inquietação que nasceu a terceira edição do COMverso.

Ao longo de um semestre, estudantes dos Cursos de Comunicação & Criatividade da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) se dedicaram a fazer aquela que talvez seja a tarefa mais bonita – mas também uma das mais desafiadoras – da nossa profissão: escutar antes de concluir, compreender antes de julgar e permanecer tempo suficiente para que as histórias fossem capazes de revelar aquilo que não aparece à primeira vista.

O resultado desse percurso ganha forma neste número. São reportagens, audiovisuais e em texto, além de um podcast e de conteúdos produzidos para as redes sociais. 

Os materiais foram desenvolvidos por estudantes do curso de Jornalismo nas disciplinas de Projeto Integrador – Reportagem Jornalística e Projeto Integrador – Técnicas de Reportagem e Apuração Jornalística, ministradas pela professora Camila Hartmann, e de Produção para Jornalismo Multimídia, conduzida pela professora Cristiane Lindemann, com acompanhamento da mestranda Naiara Brasil, que reuniu também alunos de Produção em Mídia Audiovisual. 

Demonstrando que grandes projetos são sempre construídos de forma coletiva, contamos com a colaboração dos discentes de Publicidade e Propaganda – especificamente, na disciplina de Criação Publicitária, sob orientação do professor Rudinei Kopp – para criar a identidade visual desta edição.

O caminho traçado percorre diferentes realidades do Vale do Rio Pardo. Histórias distintas, mas atravessadas por uma mesma pergunta: quem permanece invisível quando deixamos de olhar? 

Idosos que convivem diariamente com a solidão, mulheres que buscam recomeçar depois do cárcere, profissionais da limpeza urbana que permanecem invisíveis apesar da importância do seu trabalho, crianças e adolescentes acolhidos em Casas Lar, adultos que recorrem a abrigos municipais, famílias que enfrentam os desafios da neurodivergência na adolescência, o silenciamento do processo de luto, atletas pressionados pelo alto rendimento, iniciativas que devolvem dignidade a quem perdeu o direito de escolher, comunidades que resistem para manter viva a tradição do Carnaval, pacientes que sofreram as consequências das fraudes no sistema de home care, pessoas LGBTQIAPN+ que relatam memórias envolvendo questões de identidade, pertencimento e aceitação e adultos que buscam sair das sombras por meio da alfabetização. 

O COMverso continua sendo, acima de tudo, um projeto pedagógico. Mais do que ensinar técnicas de reportagem, entrevista ou narrativa multimídia, ele procura formar comunicadores capazes de compreender que toda pessoa carrega uma história que merece ser contada com sensibilidade e respeito.

Nenhuma reportagem muda o mundo sozinha, não é capaz de eliminar todas as injustiças, reparar todas as dores ou responder a todas as perguntas. Mas toda boa reportagem muda, ainda que por alguns instantes, a forma como enxergamos o outro. Acreditamos, profundamente, que a comunicação pode – e deve – cumprir uma tarefa ímpar: tirar das sombras aquilo que o cotidiano insiste em esconder.

Se, ao ler ou ouvir esta edição, você sair com mais perguntas do que respostas, olhar de maneira diferente para pessoas que antes passavam despercebidas ou simplesmente decidir prestar um pouco mais de atenção ao mundo ao seu redor, o COMverso terá cumprido seu papel.

Porque, às vezes, tudo o que uma história precisa para deixar de viver nas sombras é que alguém decida olhar para ela.

Profª. Drª. Camila Hartmann, em nome da equipe editorial do COMverso

Julho / 2026 · Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc)