COMverso

DAS SOMBRAS

Entre a amizade e a solidão no outono da vida

Idosos compartilham histórias de trabalho, perdas e afetos em uma instituição que acolhe seus últimos capítulos

Por Diogenes Bubolz · Jornalismo · Unisc

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A existência humana atravessa um ciclo inevitável na Terra, como as estações do ano. A infância floresce como a primavera e logo dá lugar ao doce aroma das aventuras da adolescência. A vida adulta chega como o verão, acompanhada das acaloradas correrias do trabalho, desafios e frustrações. Chegamos, então, ao outono da vida, quando o tempo desacelera suavemente antes da chegada inevitável do inverno.

Das sombras dos corredores da ASAN surge uma silhueta – e o questionamento: que histórias aguardam para ser ouvidas? (Foto: Diogenes Bubolz)

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No pátio da ASAN, o sol tenta aquecer os rostos marcados por décadas de vida e trabalho. Entre os bancos, poltronas e a correria dos cuidadores, homens e mulheres de olhares distantes seguram terços ou jornais, esperando por visitas que, para a maioria, nunca chegam.
Fundada em 4 de novembro de 1948, a Associação de Auxílio aos Necessitados e Idosos de Santa Cruz do Sul (ASAN) é uma instituição filantrópica que, há mais de 75 anos, se dedica ao acolhimento de idosos em situação de vulnerabilidade, oferecendo alimentação, cuidados de saúde, atividades recreativas e atenção emocional.
Atualmente, a instituição abriga 85 residentes, divididos em três graus. No primeiro grau, estão os idosos independentes e que possuem autonomia durante o dia a dia. O segundo grau é composto por aqueles que possuem alguma dificuldade ou debilitação, e no terceiro estão os residentes totalmente dependentes, normalmente em cadeira de rodas, com sonda, e possuem partes físicas e/ou mentais prejudicadas.
A ASAN conta com a ajuda de cerca de 90 funcionários, incluindo fisioterapeuta, psicólogo, enfermeiro, cuidador, terapeuta ocupacional, assistente social, musicoterapeuta, educador social, nutricionista e fonoaudiólogo. Além disso, um grupo de voluntários vai ao local uma vez por semana e atua em diversas atividades recreativas. Hoje o ingresso de novos residentes é feito por meio do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) da cidade.
Sobre o peso do abandono familiar, a descrição de Madalena Becker, psicóloga da ASAN, é clara:

a instituição é um lugar de "final de vida” – “a gente consegue contar nos dedos os residentes que recebem visitas assíduas”

A confirmação da psicóloga não se refere apenas às limitações impostas pelo envelhecimento, mas ao rompimento de laços: “em muitos casos, a entrada na ASAN marca o momento em que as famílias se livram totalmente de uma pessoa. Esse abandono gera um vácuo afetivo que a equipe tenta preencher diariamente”. Madalena esclarece que essa reestruturação nem sempre é possível pois “tem muitos motivos que levam ao abandono. Então a gente também precisa, é claro, estar com esse idoso, protegendo ele aqui dentro, mas também entender o lado da família, que não quer visitar por coisas muito difíceis que aconteceram”.

A voz da resitência

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Nem todos aceitam o amparo como um destino final. Sentado sozinho no banco do pátio, fumando o seu cigarro, Carlos, residente há sete meses após sofrer um AVC, é a voz do descontentamento. Ele começou a trabalhar no abatedouro de um frigorífico aos 18 anos e seguiu na profissão até a sua aposentadoria. Com sua motocicleta, enfrentava até temporais para chegar ao trabalho.
Agora, a rotina na ASAN soa como uma sentença. “Eu não mereço ficar aqui dentro”. Carlos sente falta da liberdade de ir até a esquina sozinho, direito que os muros e as regras da instituição limitam.

“Eu não me sinto bem aqui. Eu me sinto preso”.

A única alegria de Carlos se dá quando recebe as visitas de suas filhas, que vêm de Venâncio Aires e Santa Catarina para passar um tempo com o pai. Aos jovens leitores, Carlos deixa uma mensagem: “trabalhem e tenham cuidado com a bandidagem”.

A amizade como âncora

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Ofuscando o brilho tímido do sol em um dia frio, uma amizade reluzente chama a atenção. Em contraste com o descontentamento de Carlos, conhecemos a Idalina e o Valdomiro, que gostam do lugar e aproveitam para fazer tudo juntos.

Idalina e Valdomiro caminham lentamente pelo pátio (Vídeo: Diogenes Bubolz)

Idalina é residente há 12 anos e gosta de ajudar na organização das roupas e na cozinha. Trabalhou durante muito tempo em uma lavoura na fronteira com o município de Rio Pardo. Sente saudades de seus filhos, mas agradece que recebe visitas do caçula.
Valdomiro, natural de Sobradinho e residente da instituição há 6 anos, trabalhou em construções e fumageiras. Conta, com pesar, que sua filha foi assassinada, e que atualmente está sozinho. Em Idalina, porém, encontrou uma grande amizade e alguém com quem gosta de passar o tempo.
Os dois amigos contaram com alegria sobre as viagens organizadas pela ASAN, ressaltando que estavam ansiosos para conhecer a Serra Gaúcha e fazer um passeio no trem Maria Fumaça em Bento Gonçalves.

Idalina e Valdomiro, com sua alegria contagiante, são gratos pela amizade construída (Foto: Diogenes Bubolz)

Companheirismo entre memórias e saudades

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No canto da sala, sentado com semblante sério, encontramos Sérgio Nunes. Residente há 6 anos, diz que também gosta de viver na instituição. A aparência reservada, porém, logo deu lugar a uma pessoa comunicativa e empática, especialmente com sua colega Maria Odete.
Costuma passar seu tempo observando as pessoas, fazendo palavras cruzadas e jogos para estimular a mente com a terapeuta ocupacional. Conta que viveu e serviu no exército durante 20 anos, no Mato Grosso, e que sente falta de acampar e pescar no Rio Araguaia com seus amigos do Centro-Oeste.

Sérgio afirma que “os jovens no futuro têm que ter coragem, coragem de encarar a vida, porque a vida hoje não tá fácil”

Maria Odete, que dividia o chimarrão com Sérgio, tem 70 anos e é residente da ASAN há 8. Também está contente com a vivência ali. Enquanto a idade ainda permitia, costumava ajudar os funcionários na cozinha da casa. Maria sofreu uma queda que lhe deixou sequelas, afetando seu raciocínio. Com a ajuda de seu amigo, contou que sente falta da mãe, que faleceu na instituição. Ambas vieram morar juntas, pois sua mãe não caminhava mais.

Sérgio Nunes e Maria Odete aquecendo-se com um chimarrão (Foto: Diogenes Bubolz)

As rodas que o tempo parou

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Afonso tem 67 anos e é residente há 10 meses. Natural do interior de Santa Cruz do Sul, trabalhou como engenheiro de obras e metalúrgico. Afirma que gosta de passar o dia tomando seu chimarrão, assistindo televisão no seu quarto e ouvindo rádio.
Afonso compartilhou suas lembranças divertidas da juventude, quando ia nos bailes no fim de semana. “Chegava domingo de tardezinha eu não perdia um baile, todo domingo […] Eram que nem baile de dama, as damas tiravam os homens pra dançar”.

Com um sorriso vibrante, Afonso relembra sua juventude (Foto: Diogenes Bubolz)

Porém, em meio a gargalhadas e histórias engraçadas, Afonso relata que se sente preso na instituição. “É bom aqui só que não é aquela liberdade que eu tinha de passear e viajar, porque o cara tá preso aqui”.Ele contou que sente falta de viajar com sua amada moto pelo estado. Disse que queria muito poder passear para reencontrar seus amigos que moram longe.

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“Eu to aqui faz tanto tempo que nem me lembro mais”

O relato é de Antônio, que assim admite cabisbaixo. Ele não se lembra de sua idade, mas conta que gosta de ficar assistindo televisão, porém que sua paixão é a música. Insistiu em fazer uma apresentação com sua gaita de boca para o repórter, a quem passou a chamar de “sobrinho”.

Antônio mostra seu talento com a gaita de boca (Vídeo: Diogenes Bubolz)

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Manter a dignidade da ASAN e de seus 85 idosos é uma luta diária contra o esquecimento. Madalena explica que a instituição ainda batalha para reconstruir sua imagem após a crise de desvio de verbas e doações da gestão anterior.
Muitos residentes, ela complementa, usam esse fato como argumento para tentar sair do lugar

“É sempre uma luta, algo que oscila muito, num dia ele quer estar aqui, no outro ele tá com a mala pronta lá na frente para pular o portão”.

Sendo um último refúgio para essas pessoas, as paredes da ASAN guardam histórias que se silenciaram e o clamor por uma liberdade que o tempo não devolve.

SOBRE O AUTOR

Diogenes Bubolz

Estudante do 3º semestre de Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul. No COMverso Das Sombras, atuou como repórter e integrou a comissão de lançamento. Ama filmes de terror e a cultura geek. Gosta de escrever sobre temas históricos e entretenimento.