DAS SOMBRAS
Orgulho através do tempo
Uma análise sobre as diferenças geracionais entre pessoas LGBTQIAPN+
Por Évelin Nyland · Jornalismo · Unisc
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Para facilitar a leitura, a sigla LGBTQIAPN+ será referida ao longo desta reportagem como LGBT. A opção busca apenas simplificar a leitura e não desconsidera a diversidade de identidades e orientações representadas pela sigla completa, apresentada e explicada abaixo:
L — Lésbicas: mulheres que sentem atração por outras mulheres.
G — Gays: homens que sentem atração por outros homens.
B — Bissexuais: pessoas que sentem atração por mais de um gênero.
T — Transsexuais e Travestis: pessoas cuja identidade de gênero difere daquela que lhes foi atribuída ao nascer.
Q — Queer: termo “guarda-chuva” para quem não se enquadra nos padrões tradicionais de heterossexualidade e cisgeneridade.
I — Intersexo: pessoas que nascem com variações nas características sexuais (genitais, cromossomos ou hormônios) e que não se encaixam nas noções binárias tradicionais de masculino ou feminino.
A — Assexuais: pessoas que não sentem atração sexual.
Arromânticos: pessoas que não sentem atração romântica.
Agênero: pessoas que não se identificam com nenhum gênero.
P — Pansexuais: pessoas que sentem atração por outras devido a sua essência, independentemente do gênero.
N — (Pessoas) Não binárias: pessoas que não se identificam exclusivamente como homem ou como mulher, podendo transitar entre os gêneros ou não se identificar com nenhum.
+ — Mais: representa orientações sexuais, identidades e expressões de gênero que não estão contempladas pelas letras anteriores.
Durante décadas, ser uma pessoa LGBT significava, antes de tudo, aprender a esconder. Gestos contidos, palavras medidas, sentimentos negados. Para muitos, que hoje têm mais de 40 anos, a juventude foi marcada por uma convivência constante com o medo — da rejeição familiar, da violência, da exclusão social como um todo. Em contrapartida, jovens não heteronormativos contemporâneos crescem em um cenário diferente, com maior visibilidade, representatividade nas mídias, discussões abertas nas redes sociais e avanços legais importantes. Entretanto, a ideia de que tudo mudou não resiste a um olhar mais atento.
A experiência LGBT é atravessada por diferenças geracionais profundas, mas também por permanências incômodas. Entre o passado de silenciamento e o presente emergindo das sombras, surgem novas tensões, desafios e formas de existir.
O que essas vivências revelam é um percurso complexo, feito de avanços, recuos e, sobretudo, contradições.
Vidas secretas: o passado marcado pelo silêncio
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Para quem viveu a juventude antes da virada do século, assumir uma identidade LGBT era, muitas vezes, impensável. A falta de informação, representatividade, acolhimento e apoio contribuía para uma sensação de isolamento e solidão profunda, resultando em uma divisão entre ser quem é, e sofrer as consequências, ou se apagar, se esconder, em silêncio.
Um homem gay de 53 anos, que preferiu não se identificar, conta sua experiência:
“Demorou para eu aceitar a situação de ficar com outro rapaz, mesmo sentindo atração eu tinha receio, um bloqueio. Eu não podia falar sobre, não tinha com quem falar sobre, ainda não existia internet para pesquisar, muito menos livros sobre pessoas homossexuais; se tinha, todos falavam sobre ser pecado. […]
"Como não tinha com quem conversar eu reprimia tudo, isso me afetou, eu sofri muito na época. Se eu tivesse mais apoio, mais orientações sobre minha sexualidade eu teria vivido melhor com isso, convivido melhor com isso. Eu teria sofrido menos”.
Crescer sendo LGBT significava, e ainda significa, conviver constantemente com histórias de discriminação. Mesmo quem teve uma trajetória menos agressiva reconhece que essa não era a realidade da maioria das pessoas ao seu redor.
Márcio Cardozo de Souza, um homem gay de 43 anos, relembra:
“Quando eu nasci era bruto pra caramba ser gay.”
Apesar das mudanças sociais ao longo das últimas décadas, os impactos desse período ainda permanecem na vida de muitas pessoas. O silêncio imposto durante anos deixou marcas profundas, especialmente no processo de aceitação e na forma como cada indivíduo aprendeu a lidar com a própria identidade.
Yhevelin Serrano Guerin, uma mulher lésbica de 50 anos, pontua:
“Acho que o maior preconceito está dentro da própria pessoa, né? Primeiro começa com a sua própria aceitação e depois vai sendo trabalhado”.
A repressão familiar era uma realidade frequente. Em muitos casos, a descoberta da orientação sexual ou identidade de gênero resultava em expulsão de casa, violência física ou psicológica e/ou no rompimento completo de vínculos afetivos. A escola, longe de ser um espaço de acolhimento, era palco de bullying constante – ainda que, na época, esse termo sequer fosse amplamente utilizado.
Márcio de Souza destaca:
“A questão da visita, de levar para casa alguém que que é teu companheiro, assim, e tu leva para casa como amigo. Quando eu estabeleci esse relacionamento agora, eu pensei assim: “Olha, é o momento de eu dizer que é meu namorado, né?” Então eu cheguei e disse em casa, mas eu disse sabendo que não precisava dizer, né? Meu pai já tinha falecido, então acho que a barra maior seria pai, né? E minha mãe, que está viva ainda, né? Acho que sabia desde antes de mim. E minha irmã também, minha irmã super apoiadora da causa”.
Por muito tempo, viver relações afetivas de forma aberta parecia distante da realidade de muitos casais LGBT. O medo do julgamento social acabava limitando experiências simples, como apresentar alguém à família ou demonstrar afeto em público.
O mesmo homem de 53 anos comenta:
“Namoramos por três anos e, durante todo esse tempo, não conhecemos a família um do outro. Eu tinha medo dos olhares, do que iriam pensar, se iriam descobrir. […] Eu não queria causar esse constrangimento para minha família”.
As novas gerações cresceram em um contexto diferente, com maior acesso à informação, representatividade e espaços de diálogo. Embora o preconceito continue existindo, muitas pessoas hoje conseguem viver os processos de descoberta e aceitação de maneira menos solitária do que no passado.
Yhevelin Guerin reflete:
Se a Yhevelin de hoje fosse falar para a Yhevelin de antigamente, eu ia dizer assim: “Ah, que eu não precisaria ter esperado tanto tempo para falar, digamos, para pra minha família, né, os receios, os medos de um de uma adolescente”.
A virada dos anos 2000: a mudança alcança a todos?
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Com um novo século à frente, mudanças significativas começaram a redesenhar esse cenário. O avanço da internet, o fortalecimento de movimentos sociais e a ampliação do debate público sobre diversidade contribuíram para uma maior visibilidade da população LGBT.
Decisões judiciais passaram a reconhecer direitos importantes, como a união estável entre pessoas do mesmo gênero e, posteriormente, o casamento civil igualitário. A presença de personagens homossexuais em novelas, filmes e séries — ainda que muitas vezes estereotipada — também ajudou a aprofundar a discussão.
Para as novas gerações, isso deveria significar crescer com referências que antes não existiam, mas essa não é a realidade de todos.
Guilherme Haas, um jovem gay de 20 anos, relata sua experiência:
“Foi bem estranho, porque até os 13 anos eu não sabia, tipo, muito sobre sexualidade. Tipo, eu nunca vi um homem com um homem sem ser na TV, assim. Que foi quando eu vi com 13 anos.”
As redes sociais passaram a desempenhar um papel fundamental no processo da descoberta e acolhimento de diversos jovens. Plataformas digitais se tornaram espaços de expressão, escuta, troca de experiências e construção de identidade. Hashtags, influenciadores e comunidades online criaram uma rede de apoio que ultrapassa fronteiras geográficas e linguísticas.
Amanda Luisa Frantz, uma jovem lésbica de 20 anos, comenta:
“Foi durante a pandemia que daí eu tive mais acesso à internet e tal, aí eu comecei a me descobrir. Eu fiz amigos virtuais e daí a gente foi conversando, assim. Depois, no ensino médio, eu fui conhecendo mais pessoas”.
Entre avanços e permanências: os desafios do presente
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Antes, os principais desafios eram a invisibilidade, o silêncio, a solidão e a violência. Hoje, com o amplo acesso à internet, parte desses problemas foi suavizada por grupos e comunidades online, canais de denúncia e avanços legais. Contudo, a violência permanece como uma realidade preocupante e constante.
Apesar das evoluções na legislação, o Brasil ainda está entre os países com maior índice de violência contra pessoas LGBT. Um levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB), a organização não governamental mais antiga voltada a esta causa na América Latina, mostra que,
em 2025, a cada 34 horas, uma pessoa da comunidade foi morta no Brasil. Ao total, 257 casos foram notificados ao longo do último ano.
Além disso, pelo 18º ano consecutivo, o Brasil segue como o país que mais mata pessoas transsexuais no mundo. De acordo com dados de 2025 da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 80 assassinatos aconteceram.
Yhevelin Guerin relata:
“Às vezes existe um certo medo, por exemplo, numa cidade que tu não conhece. Eu não vou andar de mão com minha esposa porque eu não sei como o outro vai reagir. Porque a gente vê informações de violência, isso a gente tem receio”.
A violência não é só física, assim como não acontece apenas fora de casa. No ambiente familiar, embora haja mais abertura em comparação com o passado, a aceitação ainda não é universal. Muitos jovens enfrentam resistência, incompreensão e rejeição.
Guilherme Haas relembra sobre sua experiência de se assumir para sua mãe:
“Eu me assumi gay com 16 anos. Quando a minha mãe, ela, chegou no meu quarto, só bateu a porta assim e falou: ‘Guilherme, vem aqui’. Eu acho que foi o momento, assim, mais tenso da minha vida. […] eu senti um monte de coisa, que eu nem nem sabia que eu podia sentir ao mesmo tempo. Ela falou: ‘É verdade o que a Camila [irmã de Guilherme] me contou? Que tu gosta de homem?’ Eu falei: ‘Eu acho que sim.’ […]
A primeira coisa que ela falou: ‘Aqui nessa casa eu não aceito um doente. Homem gosta de mulher e mulher gosta de homem.’
[…] Naquele dia em específico, foi a primeira vez que eu confrontei a minha mãe, que eu tive coragem, não sei da onde que eu tirei coragem. Só que eu pensei: ‘Nossa, tipo assim, eu sempre fui muito bom, eu nunca fiz nada de errado. Só que, mesmo assim, não era suficiente? Uma coisa que eu não tenho culpa, é uma coisa normal. Porque que para ela foi como se eu tivesse usando droga, como se eu tivesse, sei lá, matado alguém? Sendo que eu nunca fiz nada de errado para ninguém?’ Quando ela falou aquilo para mim foi, tipo, o meu pilar, que era a minha família, tipo, desmoronou. Quando eu percebi que ela não tava aceitando, não o que eu tava fazendo, mas quem eu era, eu comecei a me impor. E quando eu comecei a me impor, eu comecei a descobrir mais sobre mim. Eu comecei a parar de pensar: ‘Ai, o que que ela vai pensar? O que que a minha família vai pensar?’ Não, eu comecei a pensar: ‘O que que eu vou pensar? O que que eu quero para mim?’ […] Isso é uma coisa que me machuca muito até hoje, por mais que hoje a minha relação com a minha mãe é boa, a gente já conversou um pouquinho, ainda é uma coisa que me afeta. […] Eu nunca consigo esquecer aquele dia. Eu nunca consigo esquecer, às vezes, do nada, eu tô em casa e eu olho para a minha mãe, me dá um aperto no peito, sabe? Por mais que eu tô super bem com ela. […]
Eu queria só ter ouvido ‘não tem problema’ ou ‘não me importo’, sabe? não um ‘sai daqui, seu doente’, sabe?”.
Com dificuldades latentes, um caminho árduo e longo segue adiante, mas ser quem é sempre necessitou e segue precisando de muita coragem e amor próprio.
Márcio Souza recomenda para as gerações mais novas:
“Não vai ser fácil falar pro pai e pra mãe. Eu não passei por isso, mas muitos amigos sim e eu sei que é bruto esse momento. Vai ter família que a mãe e o pai vão te abraçar, vai ter família que talvez queiram te botar pra fora de casa. Com essas famílias que você deve procurar ajuda fora, de psicólogo, procurar acompanhamento em escolas, com pessoas que podem te dar suporte…
Mas não se apague, seja feliz do jeito que você é, com bandeira erguida ou sem bandeira... Vestindo plumas e paetês, como o estereótipo, ou usando uma camisa polo como eu estou usando agora.
Curta a vida, ela é curtinha pra caramba, se você ficar sofrendo por causa disso você não vai ter tempo pra aproveitar.”
Em meio aos medos e inseguranças, encontrar pessoas dispostas a ouvir, compreender e respeitar suas vivências pode transformar completamente o processo de aceitação.
Yhevelin Guerin reafirma:
“Não desistam da da felicidade. As barreiras e os obstáculos, eles vão existir sempre, né? Nem sempre a gente vai encontrar pessoas que são legais, que vão aceitar, digamos, as nossas escolhas, né, a forma como a gente decidiu viver. E nem se trata de escolha também, né? […] Na verdade, é uma condição que a gente faz sentir,
"mas o mais importante é realmente que vocês sintam amor. Eu acho que esse é o principal”.
Mesmo em histórias marcadas pelo medo da rejeição, o acolhimento pode surgir de onde menos se espera. Para muitas pessoas LGBT, familiares que inicialmente pareciam mais rígidos ou distantes acabam se tornando importantes fontes de apoio e compreensão.
Amanda Frantz comenta sobre seus receios de se assumir para a família:
“O meu pai sempre foi bem tranquilo sobre isso, eu achei que ele que brigaria mais comigo, mas ele foi quem mais me apoiou”.
Tempo de sobra: nunca é tarde para se orgulhar
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Diversas pessoas que fazem parte da comunidade LGBT há mais tempo acreditam que já é tarde para se assumir. Para muitos, o processo de compreender a própria identidade leva anos — às vezes uma vida inteira — e isso não torna essa descoberta menos válida ou menos importante. Todos têm seu próprio tempo e, cada um em seu ritmo, deve ter a chance de viver uma vida que realmente faça sentido para si, ao lado de pessoas com quem compartilha uma conexão verdadeira.
Márcio Souza encoraja os que ainda anseiam pelo pertencimento:
“Eu sou defensor do curtir a vida. Não se preocupe se você tem a idade mais avançada, o importante é como você se sente e de que forma você tá aproveitando a vida. Você não é mais um adolescente para fazer estripulias por aí, mas também não tá morto para ficar enterrado em cima de um sofá, na frente da televisão.
"Vá pra rua, o seu lugar é na rua curtindo pessoas como você. Vai curtir a vida, vai ser você mesmo”.
A liberdade de viver a própria identidade não deveria ter prazo, idade ou qualquer momento ideal, ela apenas precisa encontrar espaço para acontecer.
Passado, presente e futuro: o que mudou e o que ainda falta
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Ao comparar as vivências LGBT entre gerações, é impossível ignorar os avanços: Há mais visibilidade, mais direitos, mais espaços de fala. Os jovens de hoje têm acesso a informações e referências que antes eram inexistentes, até mesmo impensáveis. Ao mesmo tempo, é evidente que muitas dificuldades persistem, sem previsão de melhora. O preconceito não desapareceu, apenas se transformou. A violência ainda é constante, assim como a exclusão em diferentes esferas da sociedade.
A necessidade de pertencer, a vontade de ser, o pensamento de que já é tarde e a agressão presente em todos os cantos e de tantas formas mostra que a luta por aceitação é multifacetada. Ainda assim, apesar das dificuldades enfrentadas diariamente, existe algo profundamente libertador em finalmente se reconhecer.
Depois de anos de medo, silêncio e tentativa de se encaixar em expectativas alheias, olhar no espelho e enxergar um reflexo que faz sentido — alguém que existe de forma inteira e honesta – transforma tudo.
Em meio às dores, julgamentos e inseguranças, finalmente poder viver com autenticidade sempre será uma das formas mais corajosas, valiosas e bonitas de existir.
Guilherme Haas incentiva:
“Seja quem tu quer ser, seja o que que tu gosta, para de procurar um padrão, para de procurar uma forma que as pessoas vão te julgar menos. Tu quer ser afeminado? Seja afeminado! Quer falar com uma voz fina? Fala com uma voz fina! Tu quer vestir um cropped? Bota p**** de um cropped, sabe? Mas não fica naquilo: ‘Ah, não, não posso ser assim porque a sociedade vai me julgar.’ Sabe? Para mim, a coisa mais importante da minha vida foi e quando eu comecei a vestir o que eu queria, eu comecei a falar do jeito que eu queria, eu comecei a me envolver com as pessoas que eu queria. Eu sabia que não era errado”.
Uma reportagem sem ponto final: a luta segue
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Ouvir quem viveu décadas de repressão ajuda a compreender o valor das conquistas atuais e as consequências de passar anos em silêncio. Por outro lado, escutar jovens LGBTs permite identificar novas demandas e desafios, assim como perceber as dificuldades que permanecem, sempre com a mesma força. A construção de um futuro mais inclusivo necessita de apoio, reconhecimento e coragem.
Entre sussurros do passado e vozes amplificadas do presente, a história LGBTQIAPN+ segue sendo escrita — não como uma narrativa única, mas como um mosaico de experiências, lutas e identidades.
IN MEMORIAM
Carlos Roberto Nyland
★ 14.03.1972 — ✝ 16.03.2026
Meu tio Carlos foi a primeira pessoa para quem me assumi como bissexual da família. Ele já sabia, mas nunca perguntou nem fez grande caso sobre o assunto. Lembro muito bem daquela noite.
Estávamos no apartamento da minha avó, mãe dele. Como de costume, ele foi até a sacada fumar; eu, sombra dele desde sempre, fui junto. Eu tinha 14 anos — me entendia como bissexual há pouco menos de um ano — quando ele me perguntou se eu estava interessada em algum menino feio. Neguei. Depois de alguns segundos de silêncio, ele mudou a pergunta: “e alguma menina feia?”. Não precisei pensar muito na resposta — sempre gostamos de brincar e implicar um com o outro: “Não, só em uma bonita” e então, pela primeira vez, contei da minha sexualidade.
Ele riu, me abraçou, falou “aí sim!” e ali eu soube que ele já sabia, talvez até mesmo antes de mim.
Curiosamente, nossa última conversa, só nós dois, foi com ele fumando em uma sacada — no mesmo prédio, mas sete andares abaixo — foi sobre uma garota que eu estava interessada. Mais uma vez, ele riu e perguntou se ela era bonita.
Saudades, “fedorento”. Espero que, seja lá onde estiver, eu ainda te orgulhe.
Galeria de fotos
SOBRE A AUTORA
Évelin Nyland
Mais conhecida como Lyn, é estudante do 5º semestre de Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul. No COMverso Das Sombras, atuou como repórter e diretora-executiva. Suas pautas refletem experiências e perspectivas pessoais, especialmente ligadas à causa animal e à diversidade.




