DAS SOMBRAS
Às sombras da avenida
Escolas lutam para manter vivo o Carnaval de Rio Pardo em meio a dificuldades financeiras, improviso e resistência
Por Giovana Arruda · Jornalismo · Unisc
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O barracão ainda estava aberto depois das 23h. Restos de tecidos coloridos ocupavam parte do chão, enquanto integrantes tentavam terminar fantasias poucos dias antes do desfile. Em um canto, voluntários separavam pedras e adereços reaproveitados de antigos carnavais. Em outro, ritmistas ensaiavam batidas repetidas vezes – isso depois de um dia inteiro dividindo-se entre trabalho, família e, finalmente, a escola de samba. Entre máquinas de costura, ferragens desmontadas e estruturas ainda incompletas, o clima era de cansaço, mas também de insistência. Ninguém parecia disposto a ir embora antes de terminar mais uma etapa do trabalho.
No meio da correria, alguém pede silêncio. Os integrantes formam um círculo improvisado entre caixas de som, pedaços de alegorias e fantasias espalhadas pelo barracão. Alguns seguram instrumentos. Outros apenas abaixam a cabeça. Antes da avenida, vinha a fé. A oração antecede o ensaio, o desfile e até mesmo as reuniões mais difíceis. Em um carnaval sustentado muito mais pela persistência das comunidades do que pelo investimento financeiro, acreditar se tornou parte da sobrevivência.
A cena se repete todos os anos dentro dos barracões das escolas de samba de Rio Pardo. Muito distante da grandiosidade televisionada do Carnaval do Rio de Janeiro ou de São Paulo, o Carnaval rio-pardense é sustentado por outra lógica, de muito trabalho voluntário, arrecadação improvisada e esforço coletivo. Para escolas como a Embaixadores do Ritmo, a Realeza da Vila, a E.S Candangos e a mais recente Dragões do Rio Pardo, colocar um desfile na Avenida Gogóia significa enfrentar uma rotina de dificuldades financeiras que começa muito antes do Carnaval e termina muito depois da apuração.
Apesar de ser considerado um dos eventos culturais mais importantes da cidade, representantes das escolas afirmam que o investimento do município continua abaixo do necessário para manter os desfiles. Enquanto o público acompanha fantasias brilhantes e carros alegóricos atravessando a avenida durante poucos minutos, os bastidores mostram outra realidade.
Em Rio Pardo, o Carnaval não ocupa apenas o mês de fevereiro. Para quem vive dentro das escolas de samba, o próximo desfile começa no dia seguinte ao encerramento do anterior. Assim que termina a apuração, as escolas já começam a discutir novos enredos, pensar em fantasias, avaliar materiais que poderão ser reaproveitados e organizar formas de arrecadar dinheiro para o ano seguinte. O carnaval, longe de ser um evento de poucos dias, passa a ocupar o cotidiano de centenas de pessoas durante praticamente o ano inteiro.
O vice-presidente da Embaixadores do Ritmo, Lailton Ferreira, afirma que manter uma escola funcionando exige trabalho e envolvimento contínuo da comunidade. Ele afirma que existe uma ideia equivocada de que as escolas trabalham apenas próximo ao desfile, quando, na verdade, a preparação atravessa todos os meses do ano. “Uma escola de samba vive do Carnaval e dos títulos. Mas, para isso acontecer, precisa ter trabalho o ano todo”.
Lailton comenta que a existência de uma sede própria facilita parte da organização da escola, mas também aumenta as despesas fixas. Água, luz, manutenção do espaço, limpeza e pequenos reparos acabam se tornando custos permanentes para a agremiação. “A gente precisa fazer evento o tempo inteiro para cobrir as despesas da sede e ainda conseguir guardar alguma coisa para o Carnaval”.
Na prática, isso significa organizar rifas, feijoadas, bailes, apresentações musicais, promoções comunitárias e venda de alimentos em feiras organizadas pela prefeitura. Em muitos momentos, os integrantes destinam seus finais de semana para trabalhar em eventos destinados exclusivamente à arrecadação financeira da escola.
Mas nem todas as escolas têm sede própria… A presidente da Realeza da Vila, Zélia Leal, afirma que, assim, o processo é ainda mais difícil. Segundo ela, qualquer atividade organizada pela escola já começa gerando despesas. “Se a Realeza quiser fazer um evento, primeiro ela tem que pagar um salão. Às vezes a gente faz um evento para arrecadar dinheiro e acaba gastando quase tudo que conseguiu”.
Ela detalha que o aluguel de um salão custa entre R$ 1.200 e R$ 1.400, mais os artistas que cobram no mínimo R$ 2 mil. Duzentos ingressos a R$ 15 não cobrem nem a metade do investimento.
Além do espaço, tem os custos com alimentação, divulgação e estrutura. Mesmo assim, as escolas continuam insistindo porque sabem que, sem essas atividades, o Carnaval simplesmente não aconteceria.
Nos últimos anos, a participação das escolas em feiras gastronômicas e eventos promovidos pelo município ajudou a ampliar a arrecadação. Porém, dirigentes afirmam que os valores continuam muito abaixo do necessário para sustentar um desfile completo. Em muitos casos, integrantes acabam contribuindo financeiramente de forma individual para impedir que determinadas atividades parem.
"O Carnaval de Rio Pardo é feito por entidades que têm coragem e que amam o Carnaval" — Zélia Leal
Do lixo ao luxo
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O Carnaval é considerado a maior festa popular em todo o Brasil. Pois bem, em Rio Pardo, cada escola recebe cerca de R$ 30 mil da prefeitura para colocar o desfile na avenida. Trinta mil reais. Esse valor, de acordo com todos os dirigentes que foram entrevistados para esta reportagem, é absolutamente insuficiente. E eles não estão pedindo luxo, estão falando meramente de sobrevivência.
Zélia Leal não esconde a indignação quando fala sobre o assunto. Ela define a quantia como “irrisória” diante dos custos necessários para construir um desfile competitivo. Segundo ela, apenas os materiais básicos utilizados em alegorias e fantasias já ultrapassam facilmente o recurso repassado pelo município. “O valor que nós recebemos da prefeitura, essa ajuda de custo, é irrisório para o que nós gastamos para o Carnaval”.
Ela explica que, em 2025 e 2026, o recurso foi dividido em parcelas: R$ 25 mil primeiro e outros R$ 5 mil depois – este, condicionado ao cumprimento de exigências técnicas estabelecidas pelo município, como número de componentes e carros alegóricos, tempo mínimo e máximo de desfile, entre outras. "A quantia que nós ganhamos no ano passado, nos ajudou apenas em parte da harmonia e algumas coisas da bateria. Se nós contarmos para as escolas sobreviverem dessa ajuda de custo que a prefeitura dá, não existiria nenhuma escola".
É a parte responsável pelo canto do samba-enredo enquanto uma escola desfila.
Além do baixo valor, os diretores criticam o atraso no pagamento. O recurso costuma ser liberado poucas semanas antes do desfile, então as escolas precisam trabalhar o ano todo rifando itens arrecadados, fazendo feijoada, rodas de pagode e vendendo ingressos destes eventos, para juntar o mínimo.
Plumagens, tecidos, ferragens, cola, iluminação, madeira e instrumentos tiveram aumento de valor significativo nos últimos anos. Como consequência, projetos inteiros acabam sendo reduzidos para caber na realidade financeira das escolas.
A presidente da Candangos, Aline Goulart, afirma que existe uma distância muito grande entre o desfile imaginado inicialmente e aquilo que realmente consegue chegar à avenida. “Esse ano a gente recebeu R$30mil reais. É muito pouco para o nível que a gente almeja nos nossos desfiles”.
Ela relata que os barracões se transformam em espaços constantes de adaptação. “A gente cria um projeto inicial e vai adaptando conforme o dinheiro aparece. Se tivesse dinheiro suficiente, a gente faria muito mais”.
A falta de investimento público no Carnaval de Rio Pardo não é só discurso das escolas. A Candangos, por exemplo, já cogitou não desfilar por dificuldades financeiras. Aline conta que a escola busca complementar o financeiro com editais federais, mas tudo é incerto. Enquanto isso, algumas alas são pagas pelos próprios integrantes ajudando a custear tecidos e costureiras, só a bateria recebe fantasia paga pela escola.
Alas são grupos de pessoas que vestem fantasias relacionadas ao tema de cada escola e que dividem os desfiles.
A falta de verba impacta diretamente no tamanho das alegorias, no número de alas e até mesmo na quantidade de componentes que conseguem desfilar. Em alguns casos, escolas precisam abandonar ideias inteiras porque os custos se tornam inviáveis.
Reaproveitar virou regra e identidade
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Se existe uma palavra comum nos bastidores do Carnaval rio-pardense, é reaproveitamento. Hoje, praticamente todas as escolas utilizam fantasias e adereços de anos anteriores para reduzir custos. O reaproveitamento deixou de ser apenas criatividade e passou a ser necessidade.
Na Embaixadores do Ritmo, o armazenamento de materiais se tornou parte fundamental da preparação para o Carnaval. Assim conta o vice-presidente:”a gente guarda ferragem, madeira, tecido, pluma artificial. Tudo que pode ser reutilizado fica guardado”.
Segundo Lailton Ferreira, essa prática se intensificou principalmente na última década, conforme os custos aumentaram e os recursos permaneceram limitados. A situação ficou ainda mais difícil após a enchente que acometeu o estado em 2024. A água atingiu a sede da escola e destruiu instrumentos, fantasias e materiais armazenados para os próximos desfiles.
Na Realeza da Vila, o reaproveitamento acabou se tornando parte da própria identidade da escola. Zélia Leal afirma que boa parte das alegorias é construída utilizando materiais reciclados e estruturas reaproveitadas de outros carnavais”A Realeza transformou lixo em luxo”.
Papelão, tecidos desmontados e ferragens antigas passam por um processo de reconstrução dentro do barracão. Muitas fantasias são completamente desmontadas para que detalhes específicos sejam reutilizados em novas produções.”A gente desmonta uma fantasia inteira para aproveitar o material dela em outra”.
Para Zélia, a criatividade das escolas nasce justamente da necessidade de fazer muito com pouco. “Nós não falamos que fazemos sustentabilidade. Nós mostramos”.
"O verdadeiro Carnaval é isso aqui" — Zélia Leal, apontando para um barracão construído com materiais reaproveitados
O carnaval que o público não vê
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Na avenida, a população enxerga brilho, samba e espetáculo. Nos bastidores, o cenário é completamente diferente. Dentro dos barracões, o trabalho costuma avançar madrugada adentro. Muitos integrantes chegam depois do expediente de trabalho e passam horas ajudando na costura de fantasias, pintura de alegorias e organização da escola.
A maior parte da mão de obra é voluntária. Costureiras ajudam na produção das fantasias, integrantes carregam estruturas pesadas e famílias inteiras participam da montagem dos desfiles. Em muitos casos, pessoas aprendem a trabalhar com adereços, ferragens e figurinos apenas observando integrantes mais antigos.
Zélia afirma que existe uma lógica comunitária dentro da Realeza da Vila. “Aqui um trabalha para todos e todos trabalham para um”.
Segundo ela, algumas alas consideradas tradicionais recebem fantasias produzidas integralmente pela escola, como bateria, alas infantis e baianas. Em outras situações, os próprios integrantes ajudam a custear parte da roupa.
Na Embaixadores do Ritmo, algumas fantasias também exigem contribuição financeira parcial dos participantes. “Quem desfila em destaque geralmente ajuda com a própria fantasia ou com mão de obra”, relata Lailton.
Mesmo assim, boa parte da estrutura principal continua sendo bancada pelas agremiações. As consequências aparecem diretamente nos desfiles. Segundo representantes das escolas, o número de carros alegóricos diminuiu nos últimos anos justamente por causa do aumento dos custos.
“Antes a gente tinha cinco ou seis carros alegóricos. Hoje, para colocar três na avenida, já é muito difícil” – Zélia Leal.
Mesmo diante das dificuldades, os barracões continuam cheios durante os meses que antecedem o Carnaval. Em meio a cola quente, tinta e samba-enredo, o que mantém as escolas funcionando é uma mistura de insistência, pertencimento e memória coletiva.
Embora o desfile seja o momento mais visível do Carnaval, as escolas exercem funções que ultrapassam a competição entre agremiações. Em muitos bairros, elas funcionam como espaços de convivência comunitária, produção cultural e acolhimento.
Na Embaixadores do Ritmo, projetos ligados à dança, capoeira e percussão funcionam durante o ano inteiro. A escola conta o projeto Cartola do Amanhã, voltado para crianças, além de oficinas de costura. Lailton conta que a escola também atua diretamente junto à comunidade do bairro Higino Leitão em momentos de dificuldade. Durante a enchente de 2024, por exemplo, a sede da escola serviu como ponto de apoio para famílias atingidas pelas cheias.”A escola virou um QG para receber móveis, utensílios e ajudar as famílias”.
Além disso, o espaço foi utilizado para produção e distribuição de alimentos durante a pandemia. A escola realizou uma live beneficente que arrecadou 7 toneladas de alimentos distribuídos para moradores da cidade.
Aline Goulart acredita que o potencial cultural e econômico do Carnaval rio-pardense ainda é pouco explorado. Em sua opinião, falta incentivo para formação de mão de obra especializada na área carnavalesca.”O Carnaval movimenta muito a cidade, mas ainda de forma muito primária. A cidade poderia investir mais em costureiras, aderecistas e profissionais do Carnaval”.
O peso histórico de quem insiste em ficar
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O Carnaval de Rio Pardo não é construído apenas por desfiles. Ele também é feito de memória, rivalidade, pertencimento e permanência. Cada escola carrega uma história própria, ligada diretamente aos bairros onde nasceu e às comunidades que ajudaram a construir sua identidade ao longo dos anos. Muito antes de existirem fantasias luxuosas ou alegorias iluminadas, existiam moradores organizando ensaios em ruas de chão batido, improvisando instrumentos e tentando garantir espaço dentro de um Carnaval que sempre enfrentou dificuldades financeiras.
Dentre títulos, crises, enchentes, interrupções e recomeços, as escolas de samba rio-pardenses continuam funcionando como espaços de resistência cultural. Algumas carregam décadas de tradição; outras ainda tentam construir o próprio caminho.Todas, contudo, dividem a mesma realidade: sobreviver em um Carnaval pequeno financeiramente, mas gigante para quem vive dentro dele.
Embaixadores do Ritmo: tradição construída pela comunidade verde e branco
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A Embaixadores do Ritmo, fundada em 12 de março de 1968, se consolidou como uma das escolas mais tradicionais do Carnaval rio-pardense. São 22 títulos nesses 58 anos de história, incluindo um tricampeonato recente em 2024, 2025 e 2026. A identidade verde e branca da escola se tornou símbolo do bairro Higino Leitão e também referência dentro do Carnaval da cidade.
Nos últimos anos, a Embaixadores conquistou destaque pelos enredos ligados à memória afetiva, à natureza e à valorização cultural. Em 2024, venceu o Carnaval com o enredo “O Embaixador desperta a criança que há em você”, levando nostalgia, brincadeiras e referências à infância para a Avenida Gogóia. Já em 2025, conquistou o bicampeonato com “Verde que cura, verde que embala e verde que dá samba”, trazendo um desfile voltado à relação entre natureza, sustentabilidade e Carnaval.
Em 2026, voltou a conquistar o título com o enredo “Eu sou o passado, o presente e o futuro… Sou a resistência do samba”, abordando ancestralidade, permanência cultural e identidade carnavalesca.
Realeza da Vila: o samba como resistência periférica
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A Realeza da Vila nasceu dentro de uma comunidade periférica e carrega essa identidade desde a fundação, em 1989. Segundo a presidente Zélia Leal, a escola surgiu da necessidade de criar um espaço de representação para moradores da Vila Nova, principalmente pessoas negras que não se sentiam incluídas dentro da estrutura tradicional do Carnaval rio-pardense.
Ela relembra que a escola enfrentou resistência desde o início. “Não queriam deixar a escola desfilar.”
“Nós resolvemos mostrar que o negro pobre da vila tinha coragem, fé e resistência."
Ao longo das décadas, a escola passou a desenvolver enredos ligados à valorização da cultura negra, às questões sociais e à preservação da natureza. Em 2016, conquistou um dos títulos mais marcantes de sua história com o enredo “Na mitologia da Sagrada Fênix, o reflexo do meu viver”, desfile que falava sobre renascimento, resistência e superação.
Candangos: renovação e permanência
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A Candangos, fundada em 15 de janeiro de 1959, se consolidou nos últimos anos como uma das escolas mais competitivas do Carnaval rio-pardense. Mesmo enfrentando dificuldades semelhantes às das demais agremiações, a escola passou a se destacar pela organização estética dos desfiles e pela modernização de parte da produção carnavalesca.
Nos últimos carnavais, permaneceu entre as principais colocadas da competição; em 2025 e 2026, ocupou a vice-liderança do Carnaval rio-pardense. Aline Goulart afirma que um dos maiores desafios da escola é equilibrar ambição artística e realidade financeira. Ela afirma que fortalecer o Carnaval também significa investir em formação cultural e economia criativa dentro do município.
Dragões de Rio Pardo: o começo de uma nova história
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Fundada em 2025, a Dragões do Rio Pardo é a escola mais nova do Carnaval de Rio Pardo. Em uma cidade onde as escolas tradicionais carregam décadas de história, a criação de uma nova agremiação representa tanto renovação quanto desafio.
A escola nasceu em meio ao já consolidado cenário de dificuldades financeiras, redução de investimentos e incertezas sobre o futuro do Carnaval local. Ainda assim, integrantes decidiram apostar na criação de uma nova comunidade carnavalesca dentro da cidade.
Sem a mesma estrutura das escolas mais antigas, a Dragões começou praticamente do zero, tendo que investir em uma nova formação de bateria, construção de identidade visual, organização de ensaios e fortalecimento comunitário.
Em 2026, participou oficialmente do desfile na Avenida Gogóia pela primeira vez e, mesmo terminando na quarta colocação, a escola foi recebida como símbolo de renovação dentro do Carnaval rio-pardense.
Fé e sobrevivência
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Mesmo com tantos empecilhos, existe algo que continua atravessando os barracões de todas as escolas: a ideia de pertencimento. Para muitos, o Carnaval funciona como espaço de acolhimento, identidade e permanência comunitária. A oração antes dos ensaios, repetida em diferentes escolas, revela parte dessa relação.
Existe fé religiosa, mas também existe fé no próprio Carnaval. Fé de que o dinheiro vai aparecer antes do desfile. Fé de que a alegoria ficará pronta. Fé de que a chuva não vai destruir meses de trabalho. Fé de que a escola vai ficar de pé no ano seguinte.
Enquanto o público vê fantasias prontas atravessando a avenida, os barracões escondem noites mal dormidas, improviso e exaustão. Ainda assim, todos os anos as escolas voltam. Voltam mesmo sem verba suficiente. Voltam mesmo reaproveitando papelão, tecido e ferragem. Voltam mesmo trabalhando meses para desfilar durante poucos minutos.
Porque, em Rio Pardo, o Carnaval deixou de ser apenas entretenimento há muito tempo. Ele se transformou em memória coletiva, espaço comunitário e resistência cultural. E talvez seja justamente por isso que, mesmo diante das dificuldades, ninguém pareça disposto a deixar o samba acabar.
Procurada pela equipe de reportagem, a Prefeitura de Rio Pardo não respondeu aos contatos até o fechamento desta edição. A recém-fundada Dragões do Rio Pardo também não retornou as tentativas de contato da equipe.
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SOBRE A AUTORA
Giovana Arruda
Estudante do 6° semestre de Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul e repórter da Rádio Rio Pardo. No COMverso Das Sombras, atuou como repórter e integrou a comissão de lançamento. Ama música, gatos e bandas. Gosta de escrever sobre temas ligados à cultura.















