DAS SOMBRAS
Nem todo luto é visível
Há dores que não podem ser vistas, mas são sentidas todos os dias
Por Nathália Flores · Jornalismo · Unisc
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O luto costuma ser tratado como algo que precisa passar rápido. Em uma sociedade acostumada a cobrar produtividade, força e retomadas imediatas, sentir a ausência de alguém por muito tempo parece um incômodo inaudível. Mas a dor da perda não desaparece quando o assunto muda. Ela permanece nos detalhes, nas memórias e nos espaços vazios que ninguém vê.
Há quem compare o luto ao glitter: mesmo depois de limpar tudo, ele continua ali, preso aos cantos mais inesperados da vida. A metáfora ajuda a entender um processo que, muitas vezes, é vivido isolado. Entre tentativas de seguir em frente e a dificuldade de falar sobre a morte, milhares de pessoas enfrentam o luto de forma solitária, ainda que se encontre obstáculos para acolher a dor.
Nos corredores silenciosos do hospital, cada som carrega um significado
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Dentro do ambiente hospitalar, o luto nem sempre começa com a morte. Na rotina de Terapia Intensiva – setor conhecido como UTI ou CTI, dependendo da instituição – ele pode surgir de forma discreta, à medida que as possibilidades de recuperação diminuem e a família acompanha a piora clínica de quem está internado. Para Fernanda Schipper, enfermeira que atua há 10 anos em UTI e há cinco no CTI do Hospital Ana Nery, em Santa Cruz do Sul, esse processo costuma começar muito antes da perda definitiva.
“Eu acho que o luto começa muito antes da perda em si. Quando a gente vê que o tratamento chegou na terapia máxima, que o paciente já não reage mais como deveria, aquele luto já começa a ser vivido junto com a família”."
Segundo a profissional, embora exista um esforço crescente para humanizar o acolhimento dentro das UTIs, a dinâmica intensa do setor frequentemente limita o espaço para que familiares consigam expressar e elaborar a dor vivida durante a internação. Entre protocolos, decisões médicas e a urgência constante dos atendimentos, o sofrimento emocional acaba passando despercebido.
Fernanda afirma que acolher famílias exige sensibilidade, escuta ativa e preparo emocional, especialmente diante de situações em que a medicina já atingiu o limite terapêutico. Ela também chama atenção para um aspecto pouco discutido: o luto vivenciado pelos próprios profissionais de saúde. “A gente coloca a máscara, coloca a capa e vai trabalhar”, relata, ao explicar que aprender a lidar com perdas é, muitas vezes, uma forma de proteção emocional diante da convivência diária com o sofrimento e a morte.
Cada luto carrega um tempo que não pode ser medido
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Em tempos de pressa constante e rotinas exaustivas, o luto ganha cada vez menos espaço para existir. Para a terapeuta Sílvia Silveira, especialista em desenvolvimento humano, muitas dores acabam sendo invalidadas socialmente, levando pessoas a sofrer em silêncio. “O luto desautorizado é aquela dor que a pessoa sente e ela não é validada pelo meio”, explica. A especialista destaca que frases como “seja forte” ou “já passou” podem intensificar o sofrimento ao impedir que a dor seja acolhida.
“Quando a pessoa sente que o sentimento dela não é adequado ao ambiente, ela acaba muitas vezes guardando para si e sublimando a dor."
Segundo a terapeuta, a ausência de espaço para viver o sofrimento provoca consequências emocionais profundas, como apatia, sensação de não pertencimento e desconexão afetiva. “Ela passa a funcionar de modo automático. Não sofre tanto, mas também não fica feliz. É uma anestesia emocional”, relata. Conforme Sílvia, esse processo faz com que muitas pessoas deixem de viver plenamente para apenas sobreviver emocionalmente.
Nem todo vazio é ausência de dor
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Em meio aos impactos emocionais causados pela perda e às dificuldades enfrentadas por quem vive o processo de luto, especialistas alertam para a importância de reconhecer os sinais de sofrimento que ultrapassam a tristeza. A psicoterapeuta Pâmela Araújo explica que cada pessoa elabora o luto de maneira única e que esse processo varia conforme a intensidade da dor e os efeitos provocados na vida cotidiana. Segundo ela, os principais sinais de alerta surgem quando o sofrimento começa a comprometer a saúde mental e física, levando ao isolamento extremo, abandono do autocuidado, abuso de álcool e drogas, perda total de interesse pelas atividades diárias e até pensamentos relacionados ao fim da própria vida.
“O momento de procurar ajuda profissional é quando o luto ultrapassa a tristeza, colocando a saúde da pessoa em risco."
Pâmela também destaca que a ajuda profissional deve ser vista não apenas por quem enfrenta a perda diretamente, mas também para familiares e pessoas próximas que oferecem apoio. Além disso, ressalta que a falta de espaço para viver e expressar o luto pode desencadear ansiedade, raiva reprimida, sensação de vazio, tristeza profunda e sintomas físicos, como dores crônicas. O sofrimento emocional, quando silenciado, tende a comprometer a elaboração dos sentimentos e a qualidade de vida do enlutado.
Em um contexto em que a dor ainda é frequentemente silenciada ou apressada, o luto se revela como um processo profundamente humano, que não segue regras fixas nem prazos definidos. Entre a vivência individual da perda e as exigências de uma rotina que pouco permite pausas, fica evidente a importância de reconhecer o sofrimento como parte legítima da experiência de vida.
Mais do que um sentimento a ser superado, o luto exige espaço, escuta e acolhimento. Quando validado, ele pode ser vivido de forma mais saudável; quando ignorado, tende a se transformar em sobrecarga emocional e adoecimento. Nesse sentido, compreender e respeitar o tempo de cada pessoa que enfrenta uma perda é também uma forma de cuidado coletivo, e é um passo necessário para uma sociedade mais sensível às dores que não são visíveis, mas existem.
SOBRE A AUTORA
Nathália Flores
Estudante do 3º semestre de Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul. No ComVerso Das Sombras, atuou como repórter e integrou a comissão de lançamento. Tem interesse por moda, animais, marketing e escrita, com foco em temas emocionais e narrativas humanas.