COMverso

DAS SOMBRAS

O preço do sonho

Por trás da glória, atletas enfrentam pressão, isolamento e desafios relacionados à saúde mental

Por Henrique Schuster · Jornalismo · Unisc

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Quando se fala em atletas, sejam eles de alto rendimento ou iniciantes na busca por um sonho, a imagem que costuma vir à mente é a de fama, dinheiro, carros e casas luxuosas. Mas será que é tudo isso mesmo? E a infância perdida? O distanciamento da família e dos amigos, a frustração, a derrota… será que todos possuem estrutura psicológica para suportar tanta pressão?
A saúde mental é um tema que vem recebendo cada vez mais atenção. Milhões de pessoas lidam com conflitos internos, enfrentando ansiedade, depressão e outras doenças e transtornos que prejudicam a rotina cotidiana.
Segundo a OMS, o Brasil apresenta a maior prevalência de casos de depressão na América Latina. Dados do inquérito Covitel 2023, disponíveis no Observatório da Saúde Pública da Umane, revelam que 12,7% da população brasileira convive com depressão, enquanto que 26,8% sofrem de ansiedade.
Os números também expõem uma disparidade significativa entre os gêneros: entre as mulheres, 18,1% receberam diagnóstico de depressão e 34,2%, de ansiedade, percentuais consideravelmente superiores aos registrados entre os homens, que apresentaram índices de 6,9% e 18,9%, respectivamente.

Gráfico sobre Morbidades e percepção de Saúde

Tudo começa nas escolas

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Ninguém nasce atleta, e sim com um talento. Para desenvolvê-lo e se tornar um desportista, é necessário ter instrução – que vem de casa e, também, das escolas. Está mais difícil manter o foco em se tornar um atleta. É preciso disciplina e determinação para fazer isso acontecer.
Com o declínio da saúde mental, o avanço da tecnologia e o uso excessivo de celulares, esse cenário se tornou um problema crescente dentro das escolas: a formação de novos atletas perdeu espaço e passou a ser encarada, cada vez mais, como um hobby ocasional.
O professor Juliano Buchaim, do Instituto Estadual de Educação Ernesto Alves, explica a importância do esporte na formação integral dos estudantes:

"a educação física nas escolas trabalha em quatro pilares: o mental, o social, o físico e, independente da religião, o espiritual. As crianças estão voltando a acreditar nelas, o ego melhora, a autoconfiança e a questão de socializar, novos amigos através do esporte, porque conseguiram largar essa máquina que é o celular."

Explicação sobre o crescimento da prática de educação física

O professor também aponta o que tem contribuído para a retomada da prática esportiva nas escolas gaúchas:

"uma questão que voltou, no Rio Grande do Sul, é a prática de educação física em três períodos semanais, do 1º ao 5º ano dos anos iniciais. Agora eles estão voltando a ter educação física com um profissional da área, e isso está ajudando muito, principalmente porque passamos muito tempo ligados aos celulares. Agora, com o uso proibido dentro das escolas, a criança está voltando a trabalhar o corpo e o mental", afirma Juliano.

A fala do professor encontra escopo na legislação mais recente. A Lei Federal nº 15.100/2025 proíbe o uso de celulares e aparelhos eletrônicos portáteis por estudantes da educação básica em todas as escolas públicas e privadas do Brasil. A medida, que entrou em vigor com amplo debate na sociedade, foi recebida por educadores e especialistas em saúde como um passo importante para recuperar o foco, a socialização presencial e o engajamento dos alunos nas atividades físicas e pedagógicas.
Na prática, o que se observa nas escolas é que, sem a tela como distração constante, os estudantes voltaram a ocupar pátios, quadras e espaços coletivos. Com isso, passam a redescobrir o esporte como forma de expressão, pertencimento e cuidado com a própria saúde.

“Na vida nós mais perdemos do que ganhamos, e nada melhor que o esporte para nos ensinar a lidar com isso”

A mente também compete

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Diversas vezes passa pela cabeça das pessoas que os atletas são famosos e ricos; em partes, estão corretos. Porém, nas sombras, por trás das conquistas e das câmeras, existe uma realidade que raramente aparece nas transmissões ao vivo ou nas capas de revistas ou jornais: o peso psicológico de se dedicar integralmente a um sonho, desde a infância.
Perder a convivência familiar, abrir mão da vida social, enfrentar lesões, quedas de rendimento e a constante cobrança por resultados são parte do cotidiano de quem escolhe o esporte de alto rendimento como profissão. Permanece a pergunta que, em algum momento, já passou pela cabeça de todo atleta: o preço alto dessa escolha vale a pena?
Bernardo Marcolla, atleta da Associação Carlos Barbosa de Futsal (ACBF), da cidade homônima, viveu de perto esse dilema durante seus anos de formação. Em entrevista, ele comentou as dificuldades enfrentadas desde a base até a chegada ao profissional:

"no começo, quando ainda estava iniciando minha carreira profissional, sentia saudades de tudo: família, amigos, e isso tudo vinha à tona de uma vez. Mas faz parte do pacote. Tinha noção de que estava em busca do meu sonho e que teria que abrir mão de muita coisa para torná-lo realidade".

Bernardo em um jogo da ACBF na Libertadores de Futsal

A pressão silenciosa do alto rendimento

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O relato de Bernardo não é isolado. A pressão psicológica no esporte de alto rendimento é estrutural: começa ainda na base, quando crianças e adolescentes são submetidos a rotinas regadas de treino, avaliações de desempenho e a constante possibilidade de não avançarem na carreira esportiva.
O medo de falhar – com a comissão técnica, com a família, que investiu tempo e recursos, ou consigo mesmo e com o próprio sonho é um peso sobre o qual poucos falam abertamente, mas quase todos carregam.
Além da pressão interna, o atleta de alto rendimento lida com cobranças externas de torcedores, patrocinadores e da mídia. Nas redes sociais, críticas e ataques chegam em tempo real, comentários vindo na hora da raiva. O ambiente que deveria ser de superação e conquista pode se transformar, rapidamente, em fonte de sofrimento e adoecimento mental.

Quando os maiores pedem ajuda

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Não só Bernardo, mas atletas consagrados se declaram vulneráveis à pressão gerada dentro do esporte. A ginasta norte-americana Simone Biles, considerada a maior de todos os tempos em sua modalidade, surpreendeu o mundo ao se retirar das finais nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, para priorizar a saúde mental.

Bernardo entrando em quadra

O surfista brasileiro Gabriel Medina também se afastou do circuito mundial em determinado momento de sua carreira para cuidar do equilíbrio emocional.
Esses casos escancararam um debate que o esporte mundial tentou, por muito tempo, ignorar: atletas de elite também adoecem; mostram que, por mais que alguém tenha alcançado o topo do mundo, em muitos casos falta equilíbrio mental.

Gabriel Medina após eliminação na competição Fiji Pro 2017

Apoio psicológico: o tabu a ser quebrado

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A psicologia do esporte é uma das áreas que vem ganhando cada vez mais espaço nos clubes e federações. O acompanhamento psicológico, antes visto como tabu ou sinal de fraqueza no ambiente esportivo, passou a ser reconhecido como parte essencial da preparação de um atleta de alto rendimento.
Dormir bem, manter vínculos afetivos saudáveis e contar com apoio profissional especializado são apontados por especialistas como pilares fundamentais tanto para o desempenho quanto para o bem-estar dentro e fora das quadras.
Reconhecer que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas de inteligência emocional, representa um avanço significativo não só no Brasil, mas no mundo inteiro. O esporte forma caráter, ensina a lidar com a derrota e a valorizar a vitória. Mas, acima de tudo, forma pessoas e pessoas precisam de cuidado.

SOBRE O AUTOR

Henrique Schuster

Estudante do 6° semestre de Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul. No COMverso Das Sombras, atuou como repórter e integrou a comissão de redes e do site. É um grande apaixonado pela área esportiva.