DAS SOMBRAS
O julgamento está no olhar de quem vê
A invisibilidade social enfrentada por profissionais responsáveis pela limpeza urbana
Por Yuri Souza · Jornalismo · Unisc
Ouça a audiodescrição desta reportagem
Quanto vale ser notado? Nada, não é mesmo? Então por que discriminamos o trabalho de um gari? Na sociedade em que vivemos, muitos ainda enxergam essa profissão como sinônimo de fracasso. Mas, se não existissem pessoas para ocupar a profissão, quem recolheria o lixo da sua arrogância?
Tem gente que acorda cedo para trabalhar. Os garis acordam cedo para que uma cidade inteira funcione. Quando a maioria das pessoas sai de casa, as ruas já estão limpas, os resíduos já começaram a ser recolhidos e o trabalho mais pesado já está em andamento. Talvez o maior desafio desses profissionais não seja apenas lidar com o lixo, mas com a invisibilidade de uma função que só é lembrada quando deixa de ser feita.
De acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), compilados pelo Portal Salário, o setor de coleta de resíduos não perigosos no Rio Grande do Sul conta com uma estimativa de 8,5 mil trabalhadores, responsáveis por atividades essenciais de limpeza urbana.
A presença desses trabalhadores somente é percebida quando o serviço deixa de ser realizado. Enquanto tudo funciona perfeitamente, seus rostos, histórias e desafios diários costumam permanecer sombreados perante os olhos da população.
"A gente se torna invisível porque já está tudo certo"
A frase é de Ezequiel (nome fictício), gari do município de Venâncio Aires, e carrega um peso que muitas vezes passa despercebido. Estamos tão acostumados a cobrar reconhecimento em nossos próprios trabalhos que esquecemos de reconhecer aqueles que fazem a cidade continuar funcionando diariamente.
Cada pessoa exerce um papel importante dentro da sociedade. Agora, imagine se os responsáveis por recolher o nosso lixo deixassem de cumprir sua função por apenas uma semana: “a cidade não funciona mais”, destaca Ezequiel.
Em Venâncio Aires, a população produz cerca de 52 toneladas de resíduos por dia, o equivalente a aproximadamente 740 gramas por habitante. Ao longo de um mês, o número ultrapassa 1.500 toneladas de lixo coletadas. Além do impacto ambiental, o serviço também representa um alto custo para o município, que desembolsa cerca de R$ 8 milhões por ano com coleta e destinação de resíduos.
Os dados evidenciam a importância do trabalho realizado diariamente pelos coletores urbanos, responsáveis por manter a cidade limpa e garantir o funcionamento adequado dos espaços públicos.
Um trabalho essencial
Ouça a audiodescrição deste trecho
Já escutou o termo “faça chuva ou faça sol”? Esses profissionais vivem isso na pele todos os dias. É uma rotina exaustiva, marcada pelo esforço físico e pelo desgaste diário, mas, ainda assim, realizada com dedicação e responsabilidade. Um trabalho essencial que, muitas vezes, não recebe a devida atenção.
Enquanto grande parte da população ainda dorme, os garis já estão nas ruas, enfrentando diferentes condições climáticas para garantir que a cidade amanheça limpa. É um serviço silencioso, mas indispensável para o funcionamento e qualidade de vida da sociedade.
“Eu acho que o serviço deveria ser mais remunerado. Não porque eu estou ali, mas porque é um serviço essencial. Assim como médico, policial e bombeiro. Se parar uma semana de recolher lixo, a cidade não funciona mais. Imagina deixar isso acumulando”, ressalta Ezequiel.
Os garis não querem aplausos por fazerem seu trabalho. Querem respeito. Querem reconhecimento. Afinal, todo trabalhador merece viver com dignidade.
Eu vejo! E você?
Ouça a audiodescrição deste trecho
A desigualdade social em que vivemos é evidente, mesmo quando fingimos não perceber. Ao ser questionado sobre a valorização da profissão, Ezequiel afirma: “é muito pouco. A gente é meio invisível. Se você passa na rua, as pessoas nem percebem. Como a gente faz bem o nosso trabalho, acaba não tendo reclamação”.
Talvez seja justamente esse o problema. Quando tudo funciona corretamente, ninguém percebe quem está por trás do trabalho. O gari passa a ser visto apenas como parte da paisagem urbana, e não como alguém que exerce uma função indispensável.
Autor do livro Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social, o psicólogo Fernando Braga da Costa relata que a invisibilidade social aparece como consequência da forma como a população escolhe enxergar determinados trabalhadores. Muitas vezes, pessoas essenciais acabam sendo ignoradas justamente por ocuparem funções pouco valorizadas no âmbito profissional. Ainda assim, Ezequiel relata que as crianças costumam enxergar os garis como verdadeiros super-heróis, talvez porque, diferente dos adultos, elas ainda consigam olhar para esses trabalhadores sem preconceito.
No fim, talvez o problema nunca tenha sido o uniforme, mas sim o olhar de quem vê.
Relatos de quem viveu na pele
Ouça a audiodescrição deste trecho
Segundo Braga da Costa, a invisibilidade da profissão está relacionada à desigualdade econômica e à concentração de poder presentes na sociedade. Refletir sobre esse tema tornou-se uma missão de vida para o psicólogo.
"A invisibilidade pública é um sintoma social."
Se analisarmos o cotidiano da população, perceberemos que o reconhecimento nem sempre acompanha a importância do trabalho realizado, fazendo com que profissões essenciais sejam frequentemente desvalorizadas.
Os garis recolhem diariamente o lixo das ruas, mas talvez o maior resíduo que ainda precise ser removido seja o do preconceito presente em parte da população.
Fernando relatou que, durante uma pesquisa em que vestiu o uniforme de gari, percebeu que pessoas que antes o cumprimentavam normalmente passaram a ignorá-lo. O psicólogo, que varreu as ruas da Universidade de São Paulo (USP) para concluir sua dissertação de mestrado sobre a invisibilidade pública, constatou que muitas pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não ocupa posições socialmente valorizadas acaba, muitas vezes, transformado em uma espécie de sombra social.
No fim, talvez devêssemos aprender com as crianças, que ainda enxergam nesses trabalhadores pessoas dignas de respeito e admiração. Afinal, não é a profissão nem o uniforme que definem o valor de alguém, mas o caráter e a importância daquilo que faz pela sociedade. O julgamento, muitas vezes, está apenas no olhar de quem vê.
SOBRE O AUTOR
Yuri Souza
Estudante do 4° semestre de Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul. No COMverso Das Sombras, atuou como repórter e integrou a comissão de redes. Gosta de música, viagens e comunicação.