COMverso

DAS SOMBRAS

Onde ainda existe esperança

Entre grades, silêncios e recomeços, histórias que revelam a esperança como caminho para a reconstrução da vida

Por Lorenzo Silveira · Jornalismo · Unisc

Para preservar a identidade das detentas entrevistadas e mencionadas, a reportagem as identifica apenas por suas iniciais.

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Onde as pessoas são colocadas
Para sua ressocialização
Onde vem pagar seus erros
No meio da população.

Onde numa cela se
Depara com solidão,
Deixando o coração em
Aflição.

Onde muitos momentos de
Reflexão, fazem as horas
E minutos serem extensas
Diante de tanta pressão.

Onde trilha com as
Batidas do coração
Alguns momentos
De humilhação.

Onde se pensa que
Há vida da oportunidade
Para recuperação, de
Caráter, sem medo de
Perseguição.

Fazendo com que as
Autoridades avaliem sua
Situação diante da
Sociedade, para regressar
A sua família que
Também espera uma
Grande transformação.

Onde o fim da pena
Solidão e aflição, e
Desolação;
Possam lhe tirar dessa
Prisão, fazendo com
As autoridades que
Lhe deram condenação.

Olhem com outros
Olhos e façam sua
Avaliação, pois todo
Ser humano tem
Recuperação.

Diante do arrependimento
Em profundos Pensamentos
Acabem com esse
Sofrimento dentro dessa
Prisão, e venha a
Alegria de viver através
Da liberação, nunca mais
Errar e parar numa
Prisão.

L.M.R.
Em Vozes De um Tempo Vol. 6

No Brasil atual, o sistema carcerário feminino tem funcionado como um depósito de detentas. A sociedade fecha frequentemente os olhos e ouvidos para a necessidade de reeducação das presas, privando-as de oportunidades reais de mudança. É fundamental oferecer ferramentas como estudo, cursos técnicos ou profissionalizantes dentro do cárcere. Somente assim a apenada terá uma perspectiva melhor para se reintegrar à sociedade de forma justa e honesta.
Nas últimas duas décadas, o Rio Grande do Sul passou a contar com unidades prisionais femininas em Porto Alegre, Guaíba, Torres, Lajeado e Rio Pardo.

Mapa dos presídios no Rio Grande do Sul (Ilustração: Ananda Santos Louzada)

Presídio feminino na tranqueira invicta

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Inaugurado em 2022, o Presídio Estadual Feminino de Rio Pardo resultou da reforma de uma unidade penitenciária que antes abrigava homens. Atualmente, possui 74 vagas destinadas ao acolhimento de apenadas das comarcas de Rio Pardo, Santa Cruz do Sul, Vera Cruz, Candelária e outras localidades do Vale do Rio Pardo.

SAIBA MAIS · COMARCAS

Uma comarca é a divisão territorial usada pelo Poder Judiciário para organizar o atendimento de processos e tribunais em determinada região. Ela pode abranger uma ou mais cidades.

De acordo com a diretora do presídio, Carina Helena Bubolz, a segurança das detentas e do público externo é prioridade desta Unidade Prisional, que hoje abriga cerca de 70 mulheres sentenciadas, com idades e tempos de pena variados. As apenadas possuem direitos e deveres dentro do presídio, tendo acesso a projetos de ressocialização, como aulas ministradas por professores do Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos (NEEJA). A unidade conta com duas turmas de ensino fundamental (anos iniciais e finais, de forma separada) e uma turma de ensino médio. Além disso, uma das detentas está cursando o ensino superior.

Sala de aula dentro da unidade prisional (Foto: Carina Helena Bubolz)

"Queria que as pessoas me enxergasse igual como eu era na rua [...] respeitada, como um ser humano"

S.C.S

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Em meio às desigualdades sociais que assolam o Brasil, o ingresso precoce de jovens no mercado de trabalho é uma realidade frequente. A primeira detenta entrevistada pela reportagem compartilha sua jornada pessoal, percorrida até o momento da reclusão no Presídio Estadual Feminino de Rio Pardo.

“Eu comecei a trabalhar muito cedo, desde os 14. Com 15, assinei carteira, sabe, sempre fui batalhadora, tive oportunidades na vida.

Muita gente acaba não entendendo como uma pessoa que tinha tudo pode acabar chegando aqui” (S.C.S.)

Dando continuidade ao relato, a apenada expõe fragmentos de uma trajetória que emerge das sombras, revelando sua vivência no cárcere.
“Eu acordo às 6h da manhã, tomo meu banho e vou direto pra cozinha trabalhar e depois volto. O que me ajuda a seguir em frente é o apoio das guardas né, e também da minha família.

É horrível estar longe deles, é como diz o ditado: se tivesse pensado antes eu não tava aqui.

Quero continuar trabalhando com gastronomia, sabe, que tanto gostei, e cuidar da minha família, dos meus filhos e dos meus netos” (S.C.S.)

Responsabilidade atrás dos muros

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As detentas da unidade prisional têm a chance de transformar sua rotina e reduzir o tempo de condenação por meio de atividades laborais remuneradas, o que possibilita à remição da pena, um importante incentivo à ressocialização.
O cuidado com a limpeza e manutenção do presídio é integralmente gerenciado pelas próprias detentas. Elas se responsabilizam por serviços essenciais, como o funcionamento da cozinha, lavanderia, limpeza dos corredores e do pátio e até mesmo pequenas obras de manutenção dentro da unidade. Essa responsabilidade compartilhada não só garante o bom funcionamento do local, mas também estimula o senso de dever e organização entre as apenadas.

Pátio do Presídio Estadual Feminino de Rio Pardo (Foto: Carina Helena Bubolz)

“Gostaria que as pessoas esquecessem sobre sermos detentas. Somos manchadas [...] queremos ser reconhecidas”

S.C.S

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A Constituição Federal brasileira assegura o direito à família e ao trabalho para as mães, garantindo-lhes proteção legal integral. Contudo, na prática, esse direito é frequentemente negligenciado; muitas mulheres relatam que, em processos seletivos, questionamentos sobre a existência e a idade de seus filhos tornam-se barreiras para a contratação.
A escassez de oportunidades associada à maternidade pode empurrar muitas mães para caminhos que culminam no sistema prisional. Sobre essas dificuldades e sua história de vida, a detenta A.R.S. compartilha seu relato.
“Antes, digamos, vivia normal, minha mãe com 5 filhos pra cuidar, 5 de cada pai diferente, aí acabou que eu morava com a vó. Aí acaba que o que eu mais sinto falta mesmo é da minha família, dos meus filhos, sabe? Eles estavam sempre comigo. Aí sobre oportunidades é aquilo, sim, justamente por eu ser mãe me faltava oportunidades, aí sabe como é, te perguntam: tu tem filhos? De quantos anos?

Aí eu mudei quando conheci o segundo pai do meu filho, foi ele que me introduziu ao mundo do tráfico de droga, a gente meio que parava e continuava” (A.R.S.)

Ao ser questionada sobre seu cotidiano no cárcere e suas percepções acerca da realidade do lado de fora, A.R.S. conta:

“Eu entendo o que fiz de errado, de repente eles não entendem que eu não queria ajuda, sabe? Eu tinha muito orgulho pra isso. Aí eu trabalho na cozinha, levanto cedo, leio de vez em quando, fumo, vou pro pátio. Daí o que me ajuda é que tenho meus filhos, e minha vó que tá doentinha, quero sair logo daqui, sabe? Começar de novo, fazer diferente as coisas. Eu sonho em fazer algo pra mim mesma, trabalhar comigo mesmo dentro da lei, né, queria trabalhar com estética” (A.R.S.)

Ressocialização em coros

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De acordo com a diretora, o Presídio Estadual Feminino de Rio Pardo promove diversos projetos focados na ressocialização das detentas. Além de aulas e trabalho, a rotina semanal das apenadas inclui suporte contínuo da equipe técnica de saúde e ações periódicas, a exemplo da triagem vinculada ao projeto de pesquisa e extensão da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), “Quebrando Barreiras: comunidade prisional na luta contra a tuberculose”.
Também são realizadas atividades de orientação em datas alusivas a campanhas como “Setembro Amarelo”, “Dezembro Vermelho”, entre outras. As presas dispõem de duas horas diárias de tempo livre no pátio, além do acesso à biblioteca prisional.
O presídio conta com o apoio da Secretaria Municipal de Saúde, o que possibilita a integração de diversas atividades. Semanalmente, às sextas-feiras, é realizado o projeto “Corpo e Movimento”, voltado à saúde física das detentas. Aos domingos, é garantido o direito de visita, permitindo o contato das detentas com seus familiares.

Além disso, a assistência religiosa é oferecida como parte do cotidiano. A cada quinze dias, o coral “Cantoras da Liberdade” utiliza a música e a arte para promover a humanização no ambiente prisional e dar visibilidade às mulheres reclusas pela sociedade.

Ensaio do coral “Cantoras da Liberdade” (Foto: Carina Helena Bubolz)

“O que os olhos não veem o coração não sente”

P.N.S

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Embora o contato com parentes seja assegurado por lei na unidade prisional de Rio Pardo, a manutenção dos laços familiares vai muito além do direito às visitas. As marcas do passado, os julgamentos e a distância imposta pelo cárcere transformam relações antes sólidas em vínculos frágeis, muitas vezes atravessados pela dor e pelo silêncio. Para muitas mulheres privadas de liberdade, a ausência da família é uma das penas mais difíceis de suportar. Em meio a essa realidade, a detenta P.N.S. revela:
“Minha infância foi boa, trabalhava na lancheria do meu pai. Olha, faz uns cinco anos que mudei de rumo, eu roubava pra comprar droga na época. Agora eu tô bem mais tranquila, espero oportunidades, trabalho na lavagem (coleta de resíduo orgânicos). O que acaba me ajudando a seguir em frente é saber que uma hora eu vou sair daqui, voltar a trabalhar com o pai.”

“O que eu mais sinto falta é das minhas filhas, depois que a gente é preso que vê a falta. Nunca lidei com falta de oportunidades, trabalhei de carteira, faltava era buscar”. (P.N.S.)

As vozes que sobrevivem ao silêncio

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Mesmo atrás das grades, longe da família, cada relato apresentado carrega aquilo que faz essas pessoas resistirem ao cárcere: a esperança. Em meio à solidão das celas, aos arrependimentos e à exclusão constante, essas mulheres buscam reconstruir suas histórias de vida e, principalmente, recuperar suas identidades diante de uma sociedade que, muitas vezes, prefere deixá-las nas sombras. Mais do que apenas condenadas, elas são mulheres, mães, filhas, netas, trabalhadoras e, acima de tudo, seres humanos.

“A minha vida nunca foi fácil mas sempre fui guerreira, sempre batalhei pelos meus filhos, fui uma leoa e uma onça, defendi de unhas e dentes sempre que pude até cair aqui. Ficar sem notícias de tudo. Aqui a saudade dói bem mais, as lágrimas parecem lâminas cortando meu rosto pois quem inventou as grades não sabe a dor da saudade.
Este é o lugar que você olha o sol todo dia na mesma grade, você não vê o céu limpo, sempre através das telas aqui minha vida não tem voz, não tem sentido, pois ninguém ouve quando minha dor grita. Estou rodeada e ao mesmo tempo sozinha.”

L.M.R.
Em Vozes De um Tempo Vol. 6

Trecho ilustrado do livro Vozes de um Tempo Vol. 6 (Ilustração: Ananda Santos Louzada)

Agradecimentos

Carina Helena Bubolz — Diretora do Presídio
Ananda Santos Louzada (@ananda_sanloz) — Ilustrações
Dienifer Vitoria da Cruz Schuck — Modelo para capa
Maria Gabriela Lemes da Silva — Ajuda com a foto de capa

SOBRE O AUTOR

Lorenzo Silveira

Estudante do 3° semestre de Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul. No COMverso Das Sombras atuou como repórter e integrou a comissão de redes. Desde a infância, esteve imerso no universo das mídias audiovisuais, o que despertou seu fascínio pelo jornalismo cultural.